Por Michael Horton
O Evangelho de “Deus te ama de qualquer jeito”
Vimos que David Heim começou seu artigo introduzindo as frases de sete palavras com o resumo de Will Campbell em Brother to a Dragonfly (O irmão de uma libélula): “Nós somos todos bastardos, mas Deus nos ama de qualquer jeito”, disse ele. Curiosamente, Heim observa: “Nossos entrevistados não foram tão francos ao diagnosticarem a condição humana. Muitos pareceram determinados a fazer da graça, e não do pecado, a característica proeminente. No entanto, o pecado foi reconhecido de alguma maneira”. Na medida em que eu lia as respostas, esta conclusão me pareceu adequada.
“Graça” é uma daquelas palavras que você ainda pode escutar bastante hoje em dia. Protestantes históricos, evangelicais, ortodoxos e católicos romanos cantam “Amazing Grace”; e apelos à graça de Deus são, muitas vezes, ouvidos tanto em círculos liberais quanto entre os conservadores.
Mas o que é exatamente graça? Parece ser tão vago como “amor” e “ser bom”: ela foi reduzida a sentimentos subjetivos, em vez de permanecer como sendo a postura objetiva de Deus para com os pecadores. Pelo menos Will Campbell mencionou nossa pecaminosidade como o problema ao qual o evangelho responde. No entanto, ainda assim, esta ‘boas notícias’ escapam do caminho em que o amor e a justiça de Deus se abraçam através da cruz de Cristo. Certa vez, alguém gracejou: “Eu gosto de pecar; Deus gosta de perdoar. Este é um ótimo relacionamento”. É como se Deus existisse para nos fazer felizes, e quando erramos, Ele simplesmente nos lava e nos dá outra chance de fazermos melhor. A “graça” se torna perdão e capacitação; mas, perdão sem uma preciosa cruz, e capacitação do velho homem ao invés da morte dele e da ressurreição de um novo homem em Cristo.
Vários anos atrás, a socióloga Marsha Witten concluiu, após o levantamento de enormes quantidades de sermões (tanto de igrejas históricas como evangelicais), que muito da pregação protestante transformou categorias teológicas como ‘pecado’ e ‘graça’ em categorias terapêuticas. Conservadores e liberais têm apenas nuances diferentes: por exemplo, o pecado e a graça, definidos em termos mais individualistas ou mais sociais; mas a filosofia subjacente é parecida: a graça é Deus esquecer o que passou, nos dar uma chance de virar a página, e nos dar um novo alvo. (Um famoso líder evangelical, disse no Natal, em um programa matinal da rede de TV, que Jesus veio “basicamente para nos permitir fazer novamente, como no golfe”). Basicamente, a graça é o “esqueça isso” de Deus, e a Sua capacitação para sermos tudo o que podemos ser individual e coletivamente. Só o título do livro desta socióloga já nos conta a história que ela declarou tão bem: Tudo é perdoado: A Mensagem Secular no Protestantismo Americano (Princeton, 1995).
Compreender algo definido sobre a graça (pelo menos em termos bíblicos) pressupõe algo sobre o problema que ela responde. Então, se nós somos boas pessoas, que poderiam ser melhores (faltando-nos apenas a fórmula, motivos e estratégia corretos), a graça vai significar algo muito diferente do que significaria se ela fosse, digamos, a resposta à justa ira de Deus contra toda a injustiça.
A visão de mundo que muitos de nós assumimos – novamente, tanto entre liberais, quanto entre conservadores –, é que Deus preside em um mundo de causa-e-efeito. Ele construiu leis no cosmos, que funcionam praticamente como um relógio. Em uma cultura definida por Christian Smith como sendo “deísta-moralista-terapêutica”, o pecado tem muito pouco a ver com Deus – exceto pelo fato óbvio de que Ele criou o universo, de alguma forma, para funcionar assim. Deus está muito preocupado em que não prejudiquemos uns aos outros ou a sua criação, mas nossos erros são apenas indiretamente uma agressão ao próprio Deus.
Quando o pecado fica reduzido ao aspecto horizontal (a segunda tábua da lei), não podemos sequer conceber o tipo de orientação que levou à confissão de Davi, no Salmo 51. Apesar de seu arrependimento ter sido provocado principalmente por seu adultério com Bate-Seba e pelo assassinato indireto do marido dela, a crueldade de tudo aquilo foi medida pelo seu caráter ofensivo a Deus: “Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mau perante os teus olhos, de maneira que serás tido por justo no teu falar e puro no teu julgar” (v 4). O pecado não ofende a Deus porque viola a lei da prosperidade humana; ele viola a prosperidade humana porque é antes de tudo um ato de traição contra Deus. Se esse sentimento nos soa estranho, o que diríamos do lamento adicional de Davi no versículo 5 – “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe”? Davi não está apenas abalado por uma sensação subjetiva de vergonha, mas pela experiência de ser objetivamente culpado diante de Deus. Além disso, ele compreende que não está admitindo que sua moralidade passa por “dias maus”, cometendo pecados específicos que provocam a ira de Deus, mas ele está dizendo que é moralmente imundo e culpado, desde o seu nascimento.
Longe de ignorar a gravidade de nossas ofensas uns contra os outros como indivíduos e sociedades, esta definição vertical do pecado – como sendo uma ofensa contra Deus – é o que torna tais ações tão repreensíveis. Pecamos contra Deus não somente naquilo que fazemos para prejudicar os outros, mas também naquilo que deixamos de fazer pelo bem-estar deles. Fora desta referência vertical – “Pequei contra ti, contra ti somente” –, não pode existir tal coisa como pecado. Só podem existir violações dos contratos e costumes sociais.
No entanto, essa visão de pecado – como primeiramente, e, acima de tudo, contra Deus, e como a condição de origem de certos atos, não vice-versa –, pressupõe uma certa visão de Deus que a nossa cultura não menos despreza. Um evangelho que não possui a substituição vicária de Cristo pelos pecadores como centro, revela uma negação e supressão da verdade do pecado como sendo uma escravidão e culpa, das quais nenhum de nós pode escapar por nossos próprios esforços. E uma visão terapêutica do pecado, reduzida à saúde pública e privada dos seres humanos, ainda não considerou o Deus da Bíblia, de cujo amor não pode ser divorciado de sua santidade, justiça e retidão. Como Anselmo respondeu, no século XI, à rejeição moralista da expiação vicária de Cristo, “Você ainda não considerou quão grande é o seu pecado”. Nós só podemos acrescentar: “Você ainda não considerou como é santo o seu Deus “.
Buscar encontrar, ao longo destas respostas publicadas, a questão mais central da fé cristã com um olhar crítico não se trata de excentricidade. Esta é uma grande questão. Deveria fazer-nos pensar sobre como resumiríamos o evangelho em nossos breves encontros com estranhos, amigos, colegas de trabalho e parentes.
Então, se alguém desejar, aqui está o meu, elaborado a partir de Romanos 4:25:
“Crucificado por nossos pecados e ressurreto para nossa justificação.”
Claro, são nove palavras, mas duas a mais podem fazer muita diferença.
Agora é a sua vez de oferecer um resumo de sete palavras – e podemos até deixa-lo usar nove, se você precisar.
Fonte: White Horse Inn
Tradução: Arielle Pedrosa

