por Michael Horton
D.L. Moody disse certa vez: “Eu posso escrever o evangelho numa moeda de um centavo”.
A questão principal do evangelismo pessoal já foi levantada a muitos de nós: “Se você tivesse menos de um minuto no elevador com alguém, como você compartilharia o evangelho?”.
Então, como você resumiria o evangelho – o próprio coração da mensagem cristã – em sete palavras?
Uma manchete recente (23 de agosto, 2012) da revista The Christian Century (Século Cristão), uma das principais no meio Protestante, propôs esta questão a vários pastores e teólogos proeminentes. O escritor, David Heim, começa,
Em sua autobiografia, intitulada Brother to a Dragonfly (O irmão de uma libélula), Will Campbell lembra como seu amigo P.D. East o tinha atormentado por uma definição sucinta do cristianismo. East não queria uma explicação longa ou fantasiosa. “Eu não sou muito inteligente”, ele disse a Campbell. “Mantenha a simplicidade. Em dez palavras ou menos, qual é a mensagem cristã?”. Campbell disse a seu amigo: “Nós somos todos bastardos, mas Deus nos ama de qualquer jeito”. Ao que East retrucou: “Se você quiser tentar novamente, você tem duas palavras sobrando”. Campbell e East, consequentemente, tiveram uma longa conversa provocada pelo resumo de Campbell. Isto ficou preso à mente de East. Ele não tinha certeza de ter comprado a resposta de Campbell, mas ela lhe deu algo em que pensar.
Então, agora, aí vão as respostas que resultaram da pesquisa do Christian Century – as sete palavras que usaram para resumir o evangelho. Vou deixar os nomes de fora (você pode encontrá-los no link acima), mas direi o que penso sobre as suas proposições. A maioria das declarações gira em torno da compreensão mais terapêutica que eu já descrevi acima:
1. “Deus, através de Jesus Cristo, o recebe de qualquer maneira.”
(God, through Jesus Christ, welcomes you anyhow.)
Ao menos colocou a condição “através de Jesus Cristo”, mas há algo parecido com isso no Novo Testamento? As pessoas são realmente “recebidas de qualquer maneira”, à parte do arrependimento e da fé em Cristo?
2. “Nós somos a Igreja de oportunidades infinitas.”
(We are the Church of Infinite Chances.)
Primeiro de tudo, o evangelho não é a “boa notícia” sobre o que Deus fez em Cristo para salvar os pecadores? Por que, então, o “nós” se tornou o sujeito do resumo do evangelho em sete palavras? Em segundo lugar, essa resposta indica, mais uma vez, que a graça é uma nova oportunidade para um novo começo, e não a justificação de Deus dos ímpios por causa de Cristo. Oportunidades infinitas para que? A ideia implícita, no mínimo, é que Deus simplesmente esquece o que passou e vira a página. Todos os dias nós desgraçamos tudo, mas Deus é amor.
3. “Divinamente persistente, Deus realmente nos ama.”
(Divinely persistent, God really loves us.)
Eu não consigo imaginar que algum dos não-cristãos que eu conheço iria achar esta afirmação chocante, surpreendente, ou qualificada como “boa notícia”. Isso já é provavelmente o que eles pensam, por isso que eles não levam essas coisas a sério. Nem mesmo Cristo faz uma aparição neste resumo.
4. “Em Cristo, o sim de Deus derrota nosso não.”
(In Christ, God’s yes defeats our no.)
Eu podia ouvir Karl Barth oferecer essa resposta. Ainda sem o evangelho, ela soa apenas como fatalismo. Por que eu deveria responder a esse ‘evangelho’ se, aparentemente, ele não importa, de qualquer forma?
5. “A humanidade de Cristo proporciona nossa divindade.”
(Christ’s humanity occasions our divinity.)
Refletindo uma ênfase Ortodoxa Oriental sobre a salvação, como se a deificação do ser humano começasse com a encarnação de Cristo, esta resposta, novamente, poderia ser facilmente tomada por uma pessoa comum (pelo menos um capaz de entender a sentença) para expressar que a “boa notícia” não tem nada a ver com o que Deus fez por nós em Cristo, mas com o que Ele tornou possível que nós fizéssemos em cooperação com Ele.
6. “Nós vivemos pela graça.”
(We live by grace.)
É verdade. O evangelho da graça certamente nos dá vida e motiva nosso viver. Mas onde está o evangelho?
7. “Somos o que Deus diz que somos.”
(We are who God says we are.)
O entrevistado explica um pouco: “Na encarnação, vida, morte e ressurreição de Cristo, vemos que Deus é de tal forma por nós e conosco, que nós já não podemos ser definidos de acordo com morte, de acordo com um sistema de religião baseado no mérito, ou mesmo com categorias da fase final do capitalismo”. Mais uma vez, isso é de fato verdade, mas a boa notícia se trata de ter Deus ignorado a nossa dívida (“sistema de mérito”), ou, na realidade, de ter Deus, em Cristo, pago esta dívida por ter o Salvador cumprido a lei e levado sua maldição por nós?
8. “Sabedoria torna-se carne, espírito ruge, vida transformada.”
(Wisdom become flesh, spirit roars, life transformed.)
Eu sei que aí tem sete palavras, mas… novamente, nada sobre a cruz e a ressurreição.
9. “O amor corpóreo [referindo-se à Igreja] do Deus de Israel continua ganhando o mundo.”
(Israel’s God’s bodied love continues world-making.)
Depois de explicar esta frase a um passageiro atordoado no elevador, eu ficaria ainda preocupado que, com uma declaração como esta, eu estivesse colocando a ênfase – como muitos fazem – na obra salvífica do povo de Deus aqui e agora (Deus continua “ganhando o mundo”), e ao mesmo tempo, marginalizando Sua obra de salvação em Cristo na cruz.
10. “Viver na possibilidade.”
(To dwell in possibility.)
A resposta continua: “Quando minha filha foi firmada na fé cristã na primavera passada, eu dei a ela o poema de Emily Dickinson: Eu vivo na possibilidade.” A horrível verdade sobre mim e sobre o mundo em que vivo é que sou atormentado por possibilidades que abandono rapidamente. O que eu preciso é uma boa notícia de que alguém tenha realmente conquistado algo para mim, e não que me tenha tornado possível a conquista. Em Cristo, eu vivo nas realizações divinas.
Houve outras respostas que certamente incluíram elementos do evangelho:
Segundo uma delas,
11. “A parede de inimizade veio a baixo.”
(The wall of hostility has come down.)
Formada a partir da maravilhosa celebração de Paulo sobre o “mistério” em Efésios 3, esta resposta certamente possui algo que o apóstolo considerava parte do evangelho. A parede de separação entre judeus e gentios foi demolida, com este novo corpo, com Cristo por cabeça. No entanto, Paulo viu isso como possível apenas por causa da salvação que temos em Cristo pela eleição, redenção e vocação daqueles que estavam “mortos em delitos e pecados” (Efésios 1 e 2).
Outro respondeu:
12. “Ele levou cativo o cativeiro.”
(He Led Captivity Captive.)
E acrescentou: “dentre as epitomes do Evangelho, eu particularmente amo a oração de Jesus, o Agnus Dei e ‘quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro’ – a boa notícia como eu primeiramente ouvi de Paulo (Efésios 4:8), e a jubilosa proclamação de Cristo (Lucas 4:18)”. Dificilmente se pode negar que a vitória de Cristo sobre os poderes da morte e do inferno são parte do evangelho, mas, como Paulo explica em Colossenses 2:13-15 , esta vitória sobre os poderes foi conquistada precisamente porque na cruz, Deus cancelou nossa dívida para com a lei e seu veredicto contra nós.
13. “Uma vez morto. Agora vivo. Cristo refaz pessoas.”
(Once dead. Now alive. Christ reshaping people.)
Mais uma vez, parte do evangelho, num sentido mais amplo: é certamente parte da boa notícia dizer que somos levantados da morte para a vida em Cristo. No entanto, a santificação (“Cristo refaz pessoas”) não é a resposta bíblica para a pergunta: “Como nós podemos, como pecadores, ser justificados diante de um Deus santo?”
14. “Cristo oferece vida nova para todos.”
(Christ offers new life for all.)
Assim como a anterior, esta resposta oferece a regeneração sem a justificação.
15. “Deus entra na história; promessa pactual de salvação renovada.”
(God enters history; renewed covenants promise salvation.)
Tendo escrito muito sobre a teologia do pacto, eu gosto deste muito. Pode ser um bom início de conversa para chegar ao evangelho, mas eu não estou muito certo de que a adotaria como meu resumo em sete palavras.
16. “Cristo nasceu. Nós podemos nascer de novo.”
(Christ was born. We can be reborn.)
E acrescenta à resposta: “O nascimento é uma confusão, uma obrigação dolorosa, cheio de riscos e perigos. No entanto, Jesus nasceu”. É bem verdade que a encarnação de nosso Senhor e nosso novo nascimento são parte da boa nova de Deus, mas, novamente, sem o recheio no meio (a vida fiel de cristo, uma crucificação ‘confusa’ pelos os nossos pecados, e uma ressurreição vitoriosa pela nossa justificação), qual é a conexão entre o seu nascimento e o nosso novo nascimento?
17. “Deus é amor: Isso não é piada.”
(God is love: This is no joke.)
O único motivo porque tantas pessoas em nossa sociedade pensam que é uma piada, ou pelo menos não levam muito a sério, é que eles já pensam que Deus as ama. Separar-se de Cristo, por que eles deveriam? Mas, isso pode fazer com que a conversa continue depois que o elevador chegar!
Outras respostas nem sequer incluíram o evangelho, como anunciado pela Escritura:
18. “Em Cristo, Deus chama todos à reconciliação.”
(In Christ, God calls all to reconciliation.)
É o evangelho de acordo com um famoso líder de igreja Emergente. Aqui encontramos o refrão familiar do velho liberalismo (e algumas formas crescentes do novo evangelicalismo): o evangelho é um chamado para fazer algo, e não uma boa notícia sobre algo que Deus já fez por nós e pelo mundo.
19. “Ame o seu próximo como a si mesmo.”
(Love your neighbor as yourself.)
Embora Jesus tenha dito que este era um resumo da lei, esta resposta o apresenta como o resumo do evangelho. O entrevistado acrescenta: “Isso sempre pareceu um conselho moral rígido que poucos de nós éramos realmente capazes de seguir. Mas nos últimos tempos o seu significado parece mais claro”. Mais claro? Mais fácil? Hmmm.
20. “Todo mundo começa a crescer e mudar.”
(Everyone gets to grow and change.)
Imagine Jesus (não mencionado aqui) reunindo uma multidão para anunciar a boa nova do Reino. A multidão silencia, à espera das palavras, enquanto Jesus abre os seus lábios para falar: “Todo mundo começa a crescer e mudar”. Há algo vagamente parecido com isto no Novo Testamento? Que líder religioso ou palestrante motivacional não poderia dar conta do recado? Esta é a surpreendente notícia trazida por um arauto, em nome do Rei, que reconciliou inimigos consigo mesmo em seu Filho? Como se isso não bastasse, o entrevistado acrescenta: “Mas nem todo mundo vai crescer e mudar”. De fato. Existe alguma boa notícia para essa pessoa?
Houve ainda uma resposta que expressou o que parece claramente encontrar-se no coração do Evangelho, segundo as Escrituras. A única resposta que martelou a cabeça do prego, na minha opinião, dita pelo professor de missões de Yale, Lamin Sanneh, que cita as palavras de Paulo em 2 Coríntios 5:19:
“Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”.
Fonte: White Horse Inn
Tradução: Arielle Pedrosa


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