Embora o evangelismo varie em grau, de geração em geração, de acordo com os dons, a cultura, o estilo e a linguagem, os principais métodos de pregação puritana – evangelismo claro e ensino catequético –, podem mostrar-nos muito sobre como apresentar o evangelho aos pecadores. Nesta semana, vamos considerar a pregação simples.

O “estilo claro de pregação” puritano evitava tudo o que não estava claro ou compreensível a um ouvinte comum. O maior professor deste estilo de pregação foi Perkins. Perkins, frequentemente chamado de pai do puritanismo, escreveu que a pregação “deve ser clara, compreensível, e evidente… ‘este foi um sermão bastante claro’ é uma afirmação comum entre nós, e eu digo novamente, ‘quanto mais claro, melhor’”. E Cotton Mather escreveu, em poucas palavras, em seu tributo a John Eliot (um grande puritano missionário entre os índios), que a sua “forma de pregar era muito clara; tão clara que os próprios cordeiros podiam mergulhar em seus discursos a respeito daqueles textos e temas, nos quais até os elefantes podiam nadar”. Os puritanos usavam o estilo claro de pregação porque eles eram evangelísticos em essência – eles queriam atingir a todos, a fim de que todos pudessem conhecer o caminho da salvação.

A primeira parte de um sermão puritano era exegética; a segunda, doutrinária e didática; e a terceira, era aplicativa. A terceira parte, frequentemente chamada de “usos” do texto, era bastante longa e cheia de aplicações das Escrituras, de várias maneiras, para os vários ouvintes.

Perkins propôs variadas direções sobre como moldar as aplicações da Escritura à sete categorias de ouvintes:

  1. Incrédulos e indoutos e  não receptíveis ao ensino;
  2. Pessoas receptíveis ao ensino, mas indoutas;
  3. Pessoas instruídas, mas não humilhadas;
  4. Humilhados que carecem de segurança;
  5. Crentes;
  6. Apóstatas;
  7. “Mistura de pessoas” – aqueles que são uma combinação de várias categorias.

Os pregadores puritanos se dirigiam a todos os sete tipos de pessoas durante um período de tempo, mas não em cada sermão. Cada sermão incluía, pelo menos, aplicações para crentes e incrédulos. O incrédulo era, geralmente, chamado para examinar como estava vivendo e que precisava mudar; então ele era advertido a refugiar-se em Cristo, o Único que pode satisfazer as suas necessidades. Para o crente, os “usos” geralmente continham pontos de conforto, direcionamento e autoexame.

 

Três características da pregação clara que precisamos redescobrir

Três características associadas à pregação clara dos puritanos precisam ser redescobertas pelos pregadores atuais.

Primeiro, a pregação puritana dirigia-se à mente com clareza. Ela tratava o homem como uma criatura racional. Os puritanos amavam e adoravam a Deus com suas mentes. Eles viam a mente como o palácio da fé. Eles se recusavam a colocar a mente em oposição ao coração; em vez disso, eles ensinavam que o conhecimento era o solo no qual o Espírito plantava a semente da regeneração.

Segundo, a pregação puritana confrontava a consciência intencionalmente. Os Puritanos trabalhavam duro nas consciências dos pecadores como a “luz da natureza” neles. A pregação clara nomeava os pecados de forma específica, em seguida, fazia perguntas para ressaltar a culpa daqueles pecados na consciência dos homens, mulheres e crianças. Tal como um puritano escreveu: “Temos de ir com a vara da verdade divina e golpear cada arbusto atrás dos quais os pecadores se escondem, até que, como Adão que se escondeu, eles fiquem de pé, diante de Deus, em sua nudez”. Eles acreditavam que tal abordagem era necessária, porque, até que o pecador seja retirado de trás do arbusto, ele nunca irá clamar por ser vestido com a justiça de Cristo. O evangelismo moderno parece ter medo de confrontar a consciência de forma incisiva. Precisamos aprender com os puritanos, que foram solenemente convencidos de que o amigo que mais te ama certamente irá dizer a você as maiores verdades a seu respeito. Como Paulo e os puritanos, precisamos dar testemunho, sinceramente e com lágrimas, da necessidade de “arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (Atos 20:21).

Terceiro, a pregação dos puritanos persuadia apaixonadamente o coração. Era afetuosa, zelosa, e otimista. Os pregadores puritanos não apenas argumentavam com a mente e confrontavam a consciência, eles apelavam para o coração. Eles pregavam por amor à Palavra de Deus, amor pela glória de Deus, e amor pela alma de cada ouvinte. Eles pregaram com calorosa gratidão ao Cristo que os havia salvado e feito da vida deles um sacrifício de louvor. Eles anunciavam a Cristo em Sua amabilidade, esperançosos de deixar os não-salvos com ciúmes daquilo que o crente tem em Cristo.

Na próxima semana vamos considerar o uso do puritano de evangelização catequética.

 

Tradução: Arielle Pedrosa

Fonte: Ligonier Ministries

Texto traduzido do site Ligonier Ministries, referente a um trecho adaptado do livro “Living for God’s Glory: An Introduction to Calvinism” de Joel Beeke, também disponível em português, com o título “Vivendo para a Glória de Deus: Uma Introdução à Fé Reformada”, pela Editora Fiel.

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