Mateus 26 oferece uma série de cenas curtas, mas brilhantemente iluminadas a respeito da traição de Jesus. O capítulo se inicia com Cristo anunciando o fim do Seu ministério de pregação pública. Depois disso, Ele diz aos seus discípulos: “Sabeis que, daqui a dois dias, celebrar-se-á a Páscoa; e o Filho do Homem será entregue para ser crucificado” (v. 2).
Para nós, relembrando a história, a intenção de Cristo ao morrer na cruz não poderia ser mais clara. Mas os discípulos não compreendem Suas pretensões; eles ainda estão apegados às suas próprias esperanças para Cristo e Seu reino. Alguns cristãos hoje em dia estão igualmente cegos em relação às Escrituras. Eles só consultam a Palavra para confirmar suas ideias preconcebidas e suas expectativas.
Como um cineasta, Mateus muda seu foco para uma cena diferente. O Sinédrio, o supremo tribunal dos judeus, é reunido na sala de Caifás. Eles observam devidamente as formalidades da reunião, mas o objetivo deles é planejar o assassinato de Jesus. Após deliberação, é aprovada a proposta de capturar Jesus ocultamente e matá-Lo (v. 4). Uma emenda é adicionada especificando que esta detenção não deve ser feita “durante a festa, para que não haja tumulto entre o povo” (v. 5). Que mistura de procedimento parlamentar, astúcia política, e pecado hediondo foi essa reunião!
Em seguida, Mateus muda novamente seu foco para Jesus, que estava sendo recebido na casa de Simão, o leproso, em Betânia. O jantar exclusivo de homens é interrompido por uma mulher que carrega um belo vaso de alabastro cheio de óleo perfumado. Ela quebra o vaso e despeja seu líquido sobre a cabeça de Jesus.
Os discípulos (agitados por Judas – João 12:4-5) protestam contra este desperdício aparentemente sem propósito. Jesus salienta que os discípulos podem dar aos pobres a qualquer momento que lhes interessar. E mais, Ele diz que a mulher compreende o que eles se recusam a aceitar: Ele está prestes a morrer, e essa mulher reconhece esse fato ao derramar seu perfume sobre o seu Salvador.
A repreensão de Cristo nos faz lembrar que Ele compara nossas ações com os motivos de nossos corações. Às vezes, nós cristãos reformados promovemos a utilidade em detrimento da beleza. Mas o Salmo 90:17 nos diz que a nossa profissão da verdadeira religião deve ser adornada com a beleza (graça) do Senhor. Além disso, a nossa adoração pública deve refletir essa beleza. “Força e formosura no seu santuário” (Sl 96:6).
Mateus, então, dirige-se para Judas, que sai desapercebidamente do meio dos discípulos e vai aos sacerdotes fazer com eles um acordo caso ele entregue Jesus: “Que me quereis dar, e eu vo-lo entregarei?”, pergunta ele.
Mateus nos diz que “entraram em aliança com ele por trinta moedas de prata” (26:15). Alguns estudiosos traduzem o verbo grego para “aliança” aqui literalmente por “pesar”, o que significa que os sacerdotes pesaram a prata para assegurar o seu valor e pagaram a Judas naquele mesmo lugar. Os tradutores da Bíblia King James, no entanto, usam a palavra “aliança” para significar “estabelecer” ou “permanecer firme”, inferindo um juramento solene ou aliança religiosa. Ambos os significados revelam que o pecado hediondo é novamente envolvido com as formalidades da religião e da lei.
As trinta moedas de prata também refletem desprezo a Jesus. Esta pequena quantia representa os o valor cobrado de um agricultor cujo boi acidentalmente chifra um servo e causa sua morte (Ex 21:32). A vida de Cristo é vendida por um preço irrisório, mostrando o vasto abismo entre inimigos declarados de Cristo e o disposto Sofredor (Sl 22, Is 53; Zc 11:12-13).
O foco finalmente retorna para a Páscoa. Durante a refeição, Cristo afirma com convicção: “Um de vós me trairá” (Mt 26:21). A alegria solene da festa dá lugar ao pesar. Os discípulos, com medo, perguntam: “Senhor, sou eu?” (v. 22). Jesus oferece uma resposta enigmática: “O que mete comigo a mão no prato, esse me trairá” (v. 23). O problema é que em algum momento da refeição todos os discípulos teriam metido suas mãos nos pratos dispostos diante deles. Cristo está se lembrando da profecia, no entanto, e do que foi escrito sobre aquele que O havia de trair (Sl 41:9).
Cristo acrescenta: “O Filho do homem vai, como está escrito dele, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído” (Mt 26:24), reunindo as duas ideias de soberania divina e responsabilidade humana. Em Sua soberania divina, Deus pode usar os atos pecaminosos dos homens para cumprir o Seu santo propósito, sem diminuir em nada a culpa do pecador.
Finalmente, Judas tem a coragem de perguntar: “Mestre, sou eu?” (v. 25). A resposta de Cristo: “Tu o disseste”, parece menos direta, no entanto, o original é fortemente afirmativo. Nós hoje diríamos: “Você tirou as exatas palavras da minha boca, eu não poderia ter dito melhor”.
Assim, Mateus retrata a traição de Cristo, focando todos os personagens envolvidos. Ele usa a mesma técnica para descrever os subsequentes sofrimentos e morte de Cristo. O cuidado com o qual Mateus apresenta cada detalhe revela a importância desses sofrimentos. Apesar de serem terríveis as obras dos homens maus e dos falsos amigos, Cristo está executando o plano de Deus para a salvação de Seu povo.
Fonte: Ligonier Ministries
Tradução: Arielle Pedrosa

