Meu último contato com o falecido professor John Murray – por cujos escritos e influência, eu, como muitos outros, tenho uma dívida permanente – foi particularmente memorável para mim, em parte porque lhe fiz uma pergunta à qual ele deu a seguinte resposta: “Esta é um pergunta difícil!” Como um jovem um tanto tímido foi, de certa forma, um alívio saber que a minha pergunta não havia sido totalmente estúpida. É uma questão sobre a qual eu continuo a refletir.

Então, qual foi a pergunta? Ela pode parecer um tanto misteriosa. Minha pergunta foi sobre a tradução e o significado teológico da palavra usada tanto por Pedro (Atos 5:31) quanto pelo autor de Hebreus para descrever nosso Senhor Jesus: archegos. Ele já apareceu uma vez em nossos estudos de Hebreus: Jesus é o autor de nossa salvação que foi aperfeiçoado através do sofrimento, e como tal traz muitos filhos à glória (Hb 2:10). Agora, o mesmo termo reaparece no final da carta, em Hebreus 12:2, onde nosso Senhor é agora descrito como “o autor de nossa fé, que a conduz à perfeição”.

Isso explica por que – enquanto somos encorajados a ler sobre os anteriores heróis da fé (Hb 11) – é apenas no próprio Jesus que devemos fixar o nosso olhar. Se os nossos olhos puderem parar em qualquer um dos que vieram antes dEle, teremos perdido o foco de todo o capítulo. Os heróis da fé do Antigo Testamento nunca receberam o que foi prometido; eles viveram antes da plenitude dos tempos. Eles exerceram a fé, mas estavam todos confiando na promessa que seria cumprida em Cristo. Em contraste, Jesus é o “autor” da fé e Ele é também o único que a experimentou e a expressou plenamente. É maravilhoso pensar sobre Jesus desta forma. Mas como fazemos isso? O que isso significa para Ele?

Archegos descreve um inaugurador, um desbravador, um pioneiro – alguém cujas realizações tornam possível aos outros que experimentem os benefícios daquilo que ele fez. A escola em que os nossos dois filhos mais velhos estudam realiza um anual serviço do “Dia dos Fundadores”, em que os dois irmãos que inauguraram a escola séculos antes, são lembrados e honrados. Eles inauguraram algo cujos benefícios nossos filhos celebram e compartilham. Eles foram archegoi.

Mas poderíamos descrever outros líderes religiosos nesses termos, como fundadores de grandes movimentos. Hebreus quer dizer mais do que isto quando diz que Jesus é o nosso archegos.

Pense, se quiser, em um solitário oficial de reconhecimento que tomou a frente de seu pelotão o qual está em grande perigo. O oficial está procurando um modo de escapar. Ele corta caminho através de uma floresta, apenas para descobrir-se cara a cara com um despenhadeiro. Parece que não há caminho adiante, mas, a menos que ele encontre um, tudo estará perdido. Ele lança uma corda para o outro lado do despenhadeiro, e consegue prendê-la em uma árvore. Ele, então, arrisca tudo ao escalar para o outro lado, pegada após pegada, centímetro por centímetro. Ele prende a corda, de forma tal que consegue criar uma ponte. Finalmente, ele conduz seu pelotão inteiro ao longo do despenhadeiro até alcançar a segurança do outro lado.

Essa é a melhor figura de Cristo como nosso archegos! Ele é o divino Oficial de Reconhecimento, que cruzou o profundo e perigoso despenhadeiro que existia entre o homem caído e o Santo Deus.

Quando este termo archegos aparece pela primeira vez em Hebreus, é num contexto em que o autor já havia citado as palavras do Salmo 8, com referência a Cristo. O Salmo 8, por sua vez, é em parte uma meditação sobre Gênesis 1:26-28. Ele reflete sobre a maneira como Adão foi feito à imagem e semelhança de Deus e recebeu o domínio sobre a terra. Ele foi chamado para viver pela fé e para obedecer aos mandamentos de Deus. Ele foi criado para ser o jardineiro divinamente apontado, que transformaria toda a Terra em um jardim, e, portanto, por assim dizer, estenderia a glória de Deus.

Mas Adão falhou. Em vez de exercer o privilégio de refletir Deus como sua imagem e experimentar em sua miniatura o que significava para Deus ser o Senhor de todos – Adão foi privado disto.

Veio Jesus, o archegos da salvação (Hb 2:10) e o archegos de fé! Ele veio para desfazer o que Adão tão desastrosamente fez e nos levar de volta através da selva para o jardim. Ele cruzou o despenhadeiro, o abismo intransponível entre o homem pecador e o Deus santo. E Ele fez isso como o Segundo Homem, mas agora o Homem da Fé, confiando em e vivendo por toda palavra que procede da boca de Deus.

No início do Seu ministério público, Ele decisivamente superou a forte oposição do inimigo que tentava mantê-lo fora do território que Ele havia formalmente conquistado. Tendo estabelecido a sua presença nesse território, Ele seguiu em frente para a parte mais profunda e escura da selva. Quando chegou à beira do despenhadeiro e olhou adiante, Ele ouviu dos seus seguidores as palavras: “Esta é a hora do poder das trevas” (ver Lucas 22:53).De fato, tão escura e espessa era a selva, tão absolutamente solitária a tarefa de atravessar o despenhadeiro que – agora muito além de seus seguidores e envolto em trevas – escutaram-Lhe clamando: “Meu Deus, estou abandonado! Por quê?”

Que intrigante Ele ter sido enterrado em um jardim, e seus primeiros passos como o Adão ressuscitado terem ocorrido num jardim, e um dos seus discípulos mais dedicados ter (erradamente) dirigido-se a Ele como se Ele fosse o jardineiro (João 20:15 ). Jardineiro? De fato, Ele era… Dando seus primeiros passos na ressurreição do corpo, os primeiros frutos da restauração final. Jesus não é apenas outro na longa linha de heróis da fé. Ele é o archegos da nossa fé!

Fonte: Ligonier Ministries

Tradução: Arielle Pedrosa

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